terça-feira, 28 de junho de 2011

NOS PASSOS DE JESUS MISSIONÁRIO


“Fui alcançado por Jesus Cristo” (Fl 3, 12)

As novas diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja no Brasil (DFPIB) aprovados na 48ª assembléia geral da CNBB em maio de 2010 e pela Santa Sé em julho do mesmo ano, enfatizam a centralidade da missão no processo formativo destacando, com o documento de Aparecida, que “a missão é inseparável do discipulado; por isso, não deve ser entendida como uma etapa posterior à formação” (DAp 278).
A missão nasce do encontro com Jesus Cristo. A iniciativa é sempre dele: “Segue-me” (Mt 9,9). É a partir do encontro com Jesus Cristo que podemos conhecê-lo mais de perto e seguir os seus passos. Ele nos consagra e nos faz partícipes da missão e ao mesmo tempo nos vincula a ele como amigo e irmão. (cf. DAp 144).
Então, o seguimento a Jesus Cristo marca toda a existência  humana, na qual podemos distinguir o ser e o modo de ser. Assim, formar presbíteros é cooperar com os aspirantes ao presbiterado e com os presbíteros para que desenvolvam suas potencialidades humanas e cristãs e adquiram, no seguimento de Cristo, o modo ou forma presbiteral de existir (DFPIB 49).
Tendo o processo formativo, como princípio unificador, a formação pastoral missionária (DFPIB 300), necessitamos ter em conta toda uma pedagogia que contribua para que, no decorrer de todo o processo, a missão seja acolhida como dom de Deus e colocada em prática ajudada por uma metodologia  que considere o ser e agir a partir de Jesus Cristo missionário e da realidade em que o seminarista e os demais pessoas estão inseridas.
As experiências missionárias que estão acontecendo no Brasil, e, entre elas a que a Diocese de Santarém vem coordenando, procuram firmar a missão como determinante da vida de quem é chamado e enviado por Jesus Cristo e a acolhe como dom. O Espírito de Deus nos faz mergulhar na realidade da vida em sua globalidade para que, iluminados pela Palavra, aí também o discípulo missionário possa escutar a voz de Deus e discernir os seus sinais. É ele quem fecunda a missão.
Escrevendo aos Bispos da Amazônia que se reuniram em Santarém em maio de 1972, o Papa Paulo VI retornando o texto das bodas de cana, conclui: “Hoje Maria nos diz: Cristo aponta para a Amazônia”.
Jesus missionário aponta para a Amazônia. Sigamos os seus passos. Já fomos alcançados por ele. (Cf. Fl 13, 12).

 INFORMATIVO MISSIONÁRIO, Diocese de Santarém (Pará-Brasil) Ano 4, nº 08 - junho 2011

segunda-feira, 27 de junho de 2011

AS CARACTERÍSTICAS DO AMOR

Quando olhamos a manifestação do Espírito Santo, como o uso dos dons, tocamos na maravilha de Deus, que concede a Seu povo muitas bênçãos. Muitas vezes, nos questionamos: "Será que a ação de Deus se manifesta assim em mim?" Observe: todos esses dons são importantes, porém, a Palavra de Deus nos indica que o amor é o maior de todos os dons. Podemos até fazer bastante barulho, como um sino, mas é o amor que dá consistência à alma.

Você já sentiu um grande vazio em sua alma? Esse vazio se dá pela falta do Deus-Amor em nossa vida, se não amamos e não nos deixarmos amar sempre nos sentiremos vazios. Todas as nossas atitudes precisam ser por amor. Existem muitas pessoas que vivem correndo e movendo mundos e fundos, fazem muito, mas não amam nem se deixam amar.

Na vida o que realmente faz diferença são as pessoas que estão ao nosso lado; os idosos sabem bem disso. É desesperador quando alguém afasta de si as pessoas que o amam. E você pode se perguntar: "Não é a caridade que salva?" Podemos até fazer boas obras com a intenção de prejudicar alguém, com fins políticos, em nosso nome, para nos vangloriarmos, para sermos vistos pelas pessoas. Se o fazemos com essa mentalidade não há amor.

Aquilo que fazemos sem amor pouco é aproveitado, não nos sacia. Assim como nosso corpo tem necessidade de se alimentar, o mesmo ocorre com nossa alma, ela precisa de alimento. Só o amor nos torna imunes à maldade que tenta entrar em nossa alma. O amor não é um sentimento, não é uma paixão, estas são coisas distintas. Quando nós amamos alguém estamos a favor dessa pessoa, pois o amor pensa no outro, ao passo que a paixão pensa em si mesma. O amor alimenta a alma; a paixão a consome.

O amor traz em si características que são próprias dele. Ser paciente, esperar o processo do outro, a lentidão do outro. Se não amamos não temos paciência, pois o processo do outro nos faz sofrer. Quem ama tem paciência e espera pelo outro.

Para curarmos a maldade que sai da nossa boca é preciso pensar bem dos outros, querer o bem deles e lhes fazer o bem, como nos ensina Dom Bosco. O amor não tem inveja, quando você se perceber tendo inveja de alguém se pergunte: "Por que eu não amo essa pessoa?" O amor expulsa a inveja, ele não é presunçoso nem se enche de orgulho (cf. I Cor 13, 1-13).

Tudo o que não é amor em nossa vida é pecado. Quando lançamos raízes no amor até rezamos pelos nossos inimigos. Quando dizemos que Deus é amor e que Ele nos ama, estamos dizendo que Ele tem paciência conosco, que Ele não está interessado em nossos bens, porque o Senhor nos ama e não tem raiva de nós, nem se alegra com os nossos sofrimentos. Ele se alegra quando nós nos encontramos com a verdade.

Meu Deus acredita em mim, mesmo quando eu não acredito em mim mesmo. Meu Deus me espera e de mim espera tudo de bom. O amor jamais acabará. O amor sobrepõe todas as paixões.

Márcio Mendes
marciomendes@cancaonova.com
Missionário da Comunidade Canção Nova, formado em teologia, autor dos livros "Quando só Deus é a resposta" e "Vencendo aflições, alcançando milagres".

21/06/2011 - 08h20

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A ÉTICA DA DECISÃO

FORELL,George W. Ética da decisão. Introdução ao estudo da ética Cristã. São Leopoldo/RS: Ed. Sinodal, 1973

A ética da decisão é um texto onde o Forel procura destacar a liberdade, a fé, a religião e a própria vida como aspecto ligados ao ser humano. Ele acrescenta que, por mais que não se perceba, esses aspectos vão sempre exigir do individuo uma eterna tomada de posição diante das coisas e das situações adversas.
O autor coloca, ainda, a tomada de posição do individuo diante das coisas como algo de fundamental importância. Ele nunca vai fugir dessa realidade. A pessoa humana, nesse sentido está condenada a liberdade, pois as situações adversas exigem desse individuo uma posição. Até neutra que seja já é uma posição. Ele nunca se eximirá disso. Está condenado a ser livre.
De acordo com Forell a própria vida da pessoa é uma decisão. Porém, isso não é muito claro na mente de quem toma as decisões, pois muitos tentam fugir dessa responsabilidade. Talvez o medo e a insegurança diante do certo e do errado oriente-o para isso.
Na maioria das vezes, as decisões são tomadas, na visão de Forell, à luz da compreensão dos valores carregados na consciência de cada pessoa, mas nem sempre esses valores são ordenados e corretos, algumas vezes deixam a desejar.
Um exemplo de valor desordenado apresentado pelo autor na vida da pessoa é a ausência do Deus Salvador. Muitos modelam seus próprios salvadores e enveredam pelo caminho da idolatria. Isso é, na visão de Forell, reflexo da auto confiança da pessoa em si próprio  e nas suas conquistas ao longo da vida.
Forell diz que a pessoa busca para si várias crenças que não levam a lugar nenhum, não se tem uma fé que integre a vida das pessoas. Isso o torna dividida consigo mesma. Nesse sentido, de acordo com o autor, hoje já se pensa em preservar os valores cristãos na vida das pessoas. O cristianismo é a única solução para uma vida organizada e significativa.
Em minha opinião a ética da decisão é um tema muito bem trabalhado pelo autor, pena que da maneira que ele coloca não seja a mais adequada, pois ele se utiliza de uma posição muito catequética. Coloca o cristianismo como a única solução para a vida organizada e significativa. Ele poderia ter ampliado mais esse campo, pois como sabemos é possível encontrar sentido nas outras religiões.
Resenha
                                                                                               Gilberto da Silva Borges
Semanarista da Prelazia de Óbidos/Pará
(Texto de responsabilidade do autor)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS

"Meditamos juntos a profundidade do Amor do Senhor, que o levou a ficar oculto sob das espécies sacramentais, e é como se ouvíssemos, fisicamente, aqueles seus ensinamentos à multidão.

Agradar-me-ia que, ao considerar tudo isso, tomássemos consciência da nossa missão de cristãos, voltássemos os olhos para a Sagrada Eucaristia, para Jesus que, presente entre nós, nos constituiu seus membros: vos estis corpus Christi et membra de membro (I Cor 12, 27), vós sois o corpo de Cristo e membros unidos a outros membros.

O nosso Deus decidiu ficar no sacrário para nos alimentar, para nos fortalecer, para nos divinizar, para dar eficácia ao nosso trabalho e ao nosso esforço. Jesus é simultaneamente o semeador, a semente e o fruto da sementeira: o Pão da vida eterna.

Este milagre, continuamente renovado, da Sagrada Eucaristia, encerra todas as características do modo de agir de Jesus. Perfeito Deus e perfeito homem, Senhor dos céus e da terra, oferece-Se-nos como sustento, da maneira mais natural e corrente.
Assim espera o nosso amor, desde há mais de dois mil anos. É muito tempo e não é muito tempo; porque, quando há amor, os dias voam.

A procissão do Corpo de Deus torna Cristo presente nas aldeias e cidades do mundo. Mas essa presença, repito, não deve ser coisa de um dia, ruído que se ouve e se esquece. Essa passagem de Jesus lembra-nos que temos também de descobri-Lo nos nossos afazeres cotidianos.

A par da procissão solene desta quinta-feira deve ir a procissão silenciosa e simples da vida corrente de cada cristão, homem entre os homens, mas com a felicidade de ter recebido a fé e a missão divina de se comportar de tal modo que renove a mensagem do Senhor sobre a terra.

Não nos faltam erros, misérias, pecados. Mas Deus está com os homens, e temos de nos dispor a que se sirva de nós e se torne contínua a Sua passagem entre as criaturas.

(Trecho extraído do livro "Cristo que passa", 151).

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Santarém comemora 350 anos

Fundada em 1661 pelo padre Felipe Bettendorf, Santarém, que recebeu este nome em homenagem à cidade Portuguesa de Santarém, está situada na margem direita do Rio Tapajós e se destaca por ter uma natureza exuberante cercada por rios e praias, referência em todo o mundo.

Ao longo dos anos a cidade passou por inúmeras modificações em seus principais cartões postais: como a orla, o antigo trapiche, a Avenida Tapajós, os prédios históricos. O que nunca mudou foi o sentimento do povo que mora aqui. Onde a vida ainda é tranquila e serena.

Um povo apaixonado por Santarém, por Alter do chão, pelo açaí, e pelo Tapajós.

Parabéns Santarém, Parabéns santarenos!


Hoje, em comemoração aos seus 350 anos, diversas atividades culturais e sociais serão realizadas ao longo do dia:

– Projeto Nossa Gente

Local: Parque da Cidade
Hora: A partir das 08 horas

– Missa Tapajônica

Local: Igreja Nossa Senhora da Conceição (Matriz)
Hora: 17h 30 min

– Apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz (Realização: Secult – Governo do Estado)

Local: Casa da Cultura
Hora: 19 horas

– Show Canta Santarém
Local: Orla
Hora: 21 horas
Fonte: www.notapajos.com - imagens da internet

segunda-feira, 20 de junho de 2011

SEMINARISTAS MISSIONÁRIOS: UMA EXPERIÊNCIA QUE ANIMA A VOCAÇÃO SACERDOTAL

Francisco Lima dos Santos
(Seminarista da Diocese de Santarém-Pará)

Neste ano de 2011, fui enviado para fazer um ano de missão na Diocese de Santíssima Conceição do Araguaia, na região sul do Pará. Meu Bispo, Dom Esmeraldo Barreto de Farias, bispo da Diocese de Santarém, percebeu a necessidade de se formar padres que sejam missionários. Padres que saibam dialogar, escutar, partilhar, caminhar junto com o povo e que busque construir uma Igreja viva e missionária. É claro que a missão também parte de um convite especial não somente do Bispo, mas primeiramente de Deus. Por isso respondi a esse apelo, porque antes de ser padre, desejo primeiramente sentir a manifestação do amor de Deus em mim que se dá por meio do contato com o povo de Deus, pela escuta atenta da Palavra e pela oração.

Todos os anos participo da experiência missionária, um momento de encontro com as famílias, lideranças de comunidades de diversas áreas pastorais da minha Diocese. Momento de encontro também com seminaristas de outras dioceses do Brasil. Eles partilham suas experiências de missão e torna a experiência missionária mais rica. Mas essa não é a única forma de se fazer missão. Em cada lugar isso acontece com seus objetivos próprios e seu modo peculiar de organização, pedagogia e formação dos missionários.

Aqui, na Diocese de Santíssima Conceição do Araguaia, o Bispo Dom Dominique You acredita que a missão também deve se estender às escolas das diversas cidades da Diocese, aos leigos e às lideranças por meio da Missão Itinerante e Missão da Caridade. Todos os seminaristas desta Diocese fazem essa experiência. Estou aqui com esse objetivo, de levar a Boa Nova a outras pessoas, mas principalmente aprender ser humilde para acolher esse novo jeito de fazer missão.

É uma pena que nem todos os seminaristas estejam abertos para a prática missionária. Alguns afirmam que tem medo do desconhecido. Outros acham que o importante é ser padre logo, só depois eles decidem se querem ser padres missionários. Alguns dizem que só fazem missão porque foi uma exigência do Bispo, etc. Isso porque estão voltados primeiramente para si, para seus objetivos e não para a missão. “É evidente que, voltados para nós mesmos, vamos sofrer menos, porque a perspectiva será a nossa, e podemos nos defender. Mas, se estamos voltados para a missão, teremos a alegria de seguir os passos de Jesus missionário”.

Sou feliz por ser um seminarista missionário. Participei de várias experiências de missão, mas isso não significa que já sei de tudo. Na verdade há sempre algo novo que se apresenta na nossa frente. “A missão é sempre uma escola, na qual aprendemos muito e a cada dia”. Confesso que tive medo quando fui enviado. Antes de viajar, muitas pessoas chegaram a afirmar que o Sul do Pará é um lugar violento, de guerrilhas e que eu não deveria confiar nas pessoas daqui. Outras pessoas pediram que eu desistisse da viagem. Mas não permiti que o medo tomasse conta da minha vida. E que desistir não seria o caminho. O Apóstolo Paulo não desistiu quando ficou sabendo das ameaças dos judeus em Jerusalém. Ele sabia da missão que recebera e estava preparado para enfrentar cadeias e tribulações “Mas de forma alguma considero minha vida preciosa a mim mesmo, contanto que leve a bom termo a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus; dar testemunho do Evangelho da graça de Deus” (At 20, 24). É o próprio Jesus quem faz o apelo: “Ide por todo mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura”. (Mc 16, 15). Não importam as dificuldades que se apresentam em cada missão. Confiante no Senhor encontro forças para superá-las. O Senhor é minha luz e salvação, de quem terei medo? O que me faz feliz é quando percebo que o outro estar feliz por ter conhecido Jesus, é quando vejo o sorriso no rosto de cada pessoa, é saber que contribuí para o bem do outro e que este está bem porque foi ajudado. Assim, não há motivo para ter medo. O Senhor nos diz: “Não tenham medo” (Mt 28, 5). “O que nos define não são as circunstâncias dramáticas da vida, nem os desafios da sociedade ou as tarefas que devemos empreender, mas acima de tudo o amor recebido do Pai graças a Jesus Cristo pela unção do Espírito Santo”. (DAp 14).

Portanto, vejo que um ano de missão não quer dizer que já posso ser padre, mas sei que devo estar em estado permanente de missão. O seminarista tem que primeiramente desejar fazer essa experiência como a “do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 29-37), que nos dá o imperativo de nos fazer próximos, especialmente com quem sofre, e gerar uma sociedade sem excluídos, seguindo a prática de Jesus que come com os publicanos e pecadores (cf. Lc 5, 29-32), que acolhe os pequenos e as crianças (cf. Mc 10, 13-16), que cura os leprosos (cf. Mc 1, 40-45), que perdoa e liberta a mulher pecadora (cf. Lc 7, 36-49; Jo 8, 1-11), que fala com a Samaritana (cf. Jo 4, 1-26).” (DAp 135). Esta é a experiência que desejo fazer durante esse ano de 2011. Peço que façam orações por todas aquelas pessoas apaixonadas por Cristo, que responderam sim a este chamado para a missão e anunciam a salvação a todos os povos por meio d’Ele.

sábado, 18 de junho de 2011

Igreja celebra Festa da Santíssima Trindade neste domingo

De acordo com o calendário litúrgico, neste domingo (19), comemoramos a festa da Santíssima Trindade. Dom Emanuele Bargellini - Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo), doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma) e monge beneditino camaldolense – faz os comentários desta solenidade.
Leituras: Ex 34, 4b-6.8-9; 2 Cor 13, 11-13; Jo 3, 16 – 18
Estas duas breves fórmulas de oração são tão familiares aos nossos ouvidos, que talvez não percebamos a extraordinária profundidade e novidade que elas carregam em si mesmas. Nelas ficam guardadas nossa identidade mais profunda e nosso destino mais divino. Elas de fato exprimem a origem da vida divina que habita em nós, vida recebida como dom gratuito no batismo e, ao mesmo tempo, a finalidade e a meta da nossa existência para a eternidade junto de Deus.
Não fomos batizados “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”?
Esse evento de graça nos introduziu na relação profunda com a Santa Trindade, tornando-nos filhos e filhas do Pai por meio de Jesus, o Filho bem amado, quando foi derramado em nós o dom do Espírito Santo, princípio de vida divina e “penhor da nossa herança” eterna (Ef 1,14).
Quantas vezes acabamos repetindo estas palavras, ao iniciar as ações cotidianas mais humildes ou as solenes celebrações litúrgicas, enquanto as acompanhamos com o gesto do sinal da cruz traçado sobre a fronte e sobre o peito? Não faz parte dos gestos mais simples que acabamos por aprender sendo ainda crianças e daqueles que os pais gostam de ensinar com tanto carinho às próprias criancinhas? Este gesto, na sua simplicidade, constitui de fato, uma profunda profissão de fé, que coloca todo nosso ser, mente, coração e obras, em relação vital com a Trindade Santa, Pai, Filho, Espírito Santo.
Desde a tarde da Páscoa, Jesus ressuscitado derramou o Espírito sobre os apóstolos, e com o Espírito a paz e a alegria que vem do Pai, junto com o poder de resgatar o mundo inteiro com o perdão dos pecados, em prol de todos os que acreditarem em seu nome (Jo 20, 20-23). Com o dom do Espírito do ressuscitado inicia uma nova criação (cf. Gn 1, 1-2), a gestação de uma nova criatura, com a história inteira destinada a sofrer as dores do parto e a antecipar a alegria do seu nascimento: junto com os apóstolos, todos nós fomos marcados com o selo do mesmo Espírito “para o seu louvor e glória” (Ef 1, 14). Em todo tempo a vida no Espírito dos discípulos, que inicia na páscoa de Jesus, se torna testemunho surpreendente da potência da Ressurreição e canto de louvor ao amor gratuito do Pai.
Na segunda leitura Paulo nos confirma que a Santa Trindade é o ventre materno que nos gera a vida divina, a casa da nossa morada desde já, na qual somos chamados a construir entre nós relações no sinal do amor recíproco, que têm como fonte e modelo a relação do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que Jesus nos revelou com seus gestos cheios de amor e sua palavra iluminadora. “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito santo estejam com todos vós!” (2 Cor 13,13).
O Missal Romano, renovado depois do Concílio, usa estas palavras do apóstolo como Saudação inicial com a qual o sacerdote celebrante acolhe os fiéis ao começar a celebração da missa. Desta maneira lembra aos fiéis que eles vivem na comunhão da Trindade Santa, e que participando com fé à eucaristia, eles têm a graça de experimentar ainda mais profundamente o amor gratuito do Pai, a caridade sem limite do Filho, e a comunhão gerada pelo Espírito.
Com as luminosas palavras de Santo Ireneu (Adv. Haereses, III, 24, 1), o Concílio Vaticano II conecta o mistério da Igreja ao mistério da comunhão trinitária, até tornar-se quase reflexo da mesma no mundo: “Desta maneira aparece a Igreja como ‘o povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo’ “(Lumen Gentium, 4).
Através da história da salvação – a partir do seu centro que é o Mistério Pascal – nos é concedido vislumbrar e, ao mesmo tempo, ter acesso, numa certa medida, ao conhecimento e à experiência da vida interior da Santa Trindade. A constituição Lumen Gentium (cap 1, nn. 1-5), afirma que a Trindade constitui a nascente da qual brota o mistério da Igreja. Ela é também estruturada à imagem da Trindade, como comunhão na pluralidade, a caminho rumo à participação plena da comunhão da mesma, junto com a inteira história e a criação.
Esta visão de conjunto da criação e da história, que jorram do coração de Deus e ficam totalmente orientadas em relação à Trindade, como seu próprio fim, constituem o canto de glória à sabedoria de Deus; é o grande dom que Jesus, o revelador do Pai, nos oferece. É o mistério que hoje contemplamos e celebramos com fé e alegria, como canta o prefácio alternativo da festa: “Ó Pai, quisestes reunir de novo, pelo sangue do vosso Filho e pela graça do Espírito Santo, os filhos dispersos pelo pecado. Vossa Igreja, reunida pela unidade da Trindade, é para o mundo o corpo de Cristo e o templo do Espírito Santo, para a glória da vossa sabedoria” (Prefácio VIII, dos Domingos Comuns).
A vida da comunidade eclesial, nas suas variadas manifestações, se torna o lugar privilegiado da presença e da ação da Trindade; e a existência cristã de cada um, se desenvolve como existência pascal em relação à Trindade. Dela, é epifania e profecia ao mesmo tempo. A identidade profunda da Igreja peregrina no mundo e de cada cristão e cristã vive esta tensão constante entre a sua origem trinitária e a sua plena comunhão com a mesma: da Trindade para a Trindade!
A grande Doxologia que conclui a Oração Eucarística exprime esta profunda consciência da fé da Igreja e o grande impulso de esperança e de alegria que a caracterizam: “Por Cristo, com Cristo, em Cristo, à vós, Deus todo poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amém”.
Estupor, agradecimento, silêncio em adoração nos acompanham ao mergulharmos no mistério inefável da presença da Trindade em nós. No admirável discurso de despedida dos discípulos na última ceia, Jesus salienta em muitas maneiras a extraordinária comunhão com o Pai, com o próprio Jesus e com o Espírito, concedida àqueles que acreditam nele. “Se me amais, observareis meus mandamentos, e rogarei ao Pai e ele vos dará um outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da Verdade” (Jo 14, 15-17). “Nesse dia compreendereis que estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós” (Jo 14,20).
Já extraordinária foi a experiência da intimidade de Moisés com Deus e da sua intercessão em favor de Israel, experimentando a sua misericórdia e a sua fidelidade. Não lhe foi permitido, porém, “ver a glória” dele como tinha pedido (Ex 33,18), “porque o homem não pode ver-me e continuar vivendo” (Ex 33, 20). Na sua condescendência Deus concede a Moisés ficar na cavidade da rocha e esperar a sua passagem com o rosto coberto pela mão do próprio Deus. Uma vez que Deus passou, Moisés pôde vê-lo apenas pelas costas (Ex 34, 21-22). Deus se compromete a perdoar o pecado do povo e a caminhar com ele até alcançar a terra prometida.
Esta linguagem simbólica, que destaca com força a alteridade e a transcendência de Deus, junto com a sua misericórdia e proximidade, será superada radicalmente pela Boa nova que nos faz conhecer o evangelho de João: Deus Pai se torna visível através do rosto humano do Filho em Jesus de Nazaré. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). “Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o deu a conhecer” (Jo 1,18).
Em Jesus nos é dado “conhecer” o Pai, no sentido bíblico da palavra, isso é experimentar seu amor, sua bondade, e participar sua própria vida, como afirma o evangelista: “Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Talvez a linguagem filosófica usada no passado pela teologia e pela catequese, para deixar vislumbrar o mistério da especificidade de cada uma das três Pessoas divinas na unidade da natureza divina, acabou afastando o mistério da Santíssima Trindade da nossa vida. A escritura e a liturgia nos ajudam a descobrir novamente que ela, Trindade, pelo contrário, constitui a nascente inesgotável da vida, a razão da nossa alegria e esperança, a energia vital que nos habita e nos guia até a plena conformação ao Senhor.
O Espírito, derramado nos nossos corações pela fé e o batismo, nos faz viver em relação filial com o Pai, uma relação liberta do temor e inspirada pela confiança e o amor: “Com efeito, não recebestes um espírito de escravos, parra recair no temor, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: Abba! Pai! O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus”. (Rm 8, 15-16). O mesmo Espírito anima nossa oração, que brota do coração sob seu impulso interior: “Assim também o Espírito socorre a nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26). O mesmo Espírito abre o coração à fé (cf At 16,14), assim como, enviado pelo Pai em nome de Jesus (Jo 14,26), recordará aos discípulos tudo o que Jesus ensinou-lhes, e os introduzirá à compreensão plena da sua Palavra, para seguir o evangelho até o dom total de si mesmos, segundo o exemplo de Jesus (cf Jo 14, 25-26; 16, 12-13).
Gerados à nova vida por ter conhecido que Deus nos amou primeiro, o Espírito nos guia àquela liberdade e caridade perfeita que afasta todo temor, e nos faz viver no amor e na confiança filial (1 Jo 4, 18). São Bento, na sua Regra, aponta esta perspectiva de liberdade no amor gerada pelo Espírito, como o cume do caminho espiritual do monge, ao subir todos os 12 graus da humildade que o conforma a Cristo (Regra dos Monges, c. 7, 67-69).
Com certeza, esta é a raiz fecunda e o fruto mais maduro da moral cristã, que brota do impulso interior do Espírito Santo e produz os frutos saborosos do amor, capaz de desapegar-se de si mesmo para se doar na liberdade, sem limite. Como o próprio Jesus, o Filho bem amado do Pai, totalmente obediente ao seu Espírito. Sobre ele desce no momento do batismo no Jordão (cf Lc 3,21-22), o investe e o guia na sua missão para anunciar a boa nova aos pobres (Lc 4, 16-19), e o sustenta na oferta de si mesmo na cruz (Hb 9,14).
A comunidade cristã encontra no Espírito de Jesus a energia e os critérios para estruturar-se em comunidade verdadeiramente humana e espiritual, autêntica antecipação do reino de Deus. Dele aprende a viver no mundo a comunhão que vem de Deus, e a transformar pessoas e relações: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos.”. (1 Cor 12, 4-7).
É sob a inspiração e na força do Espírito enviado pelo Pai, que os discípulos podem enfrentar os desafios das adversidades e das perseguições: “Quando vos entregarem, não fiqueis preocupados em saber como ou o que haveis de falar. Naquele momento vos será indicado o que deveis falar, porque não sereis vós que falareis, mas o Espírito de vosso Pai é que falará em vós”. (Mt 10, 19-20).
À luz desta ação misteriosa e eficaz do Espírito do Pai, derramado por Jesus ressuscitado, em todo discípulo, no corpo da Igreja e sobre a criação inteira para seu pleno resgate, dobramos os joelhos da mente e do coração. O infinitamente transcendente se fez infinitamente próximo para conosco, mais íntimo a nós do que nós mesmos. “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda sorte de bênçãos espirituais nos céus em Cristo.... Nele também vós... fostes selados pelo Espírito da promessa, o Espírito Santo... para o seu louvor e glória.” (Ef 1, 3. 13-14).
O ícone da Trindade, pintado pelo famoso e santo pintor russo Andrei Rublev, faz alusão aos três misteriosos personagens que visitaram Abraão, trazendo para ele e Sara a promessa do herdeiro tão esperado (Gn 18). Este ícone apresenta três anjos iguais, sentados ao redor de uma mesa redonda. Os três anjos abençoam o cálice, no qual se encontra um novilho, um bezerro sacrificado, preparado para comer. O sacrifício do novilho significa a morte do Salvador na cruz, enquanto a sua preparação como alimento simboliza o sacramento da Eucaristia. O espaço central diante da pessoa que observa o ícone está livre, está à espera que o próprio observador tome nele seu lugar, junto com os divinos hóspedes. Ali é nosso verdadeiro lugar!
Acolhamos o generoso convite do Senhor. Segundo a palavra do apóstolo, não somos mais hóspedes, mas amigos e familiares da Santa Trindade, filhos amados pelo Pai (Ef 2, 19).
Fonte: Zenit

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O MISSIONÁRIO DA ESPERANÇA

Missionários Sergio, Francisco, Ana Clara e Hipólito
 em visita missionária na comunidade
São Félix na Diocese de Santarém - Pará (2010-2011)
Obrigado, Senhor, por vos revelardes aos povos simples de coração; por tornardes fortes os mais fracos; por brilhardes  nos olhos de cada criança que conheci; por serdes esperança em cada jovem que vi; por mostrardes caminhos seguros a cada pai e mãe  que tem a missão de cuidar de seus filhos...”(Rumualdo Conceição Oliveira – Seminarista da Prelazia do Xingu).
         São muitas as realidades que podemos encontrar quando estamos em missão. Existem realidades que, aos nossos olhos, parece não existir a presença de Deus. Ouvimos muito falar de casos onde pais que maltratam os filhos, e filhos que não respeitam os pais, famílias inteiras desestruturadas por falta de uma vida familiar aonde aconteça pelo menos o respeito. Jovens abatidos psicologicamente, às vezes por falta de um namoro saudável. Encontramos até casos onde os pais, por falta de opção, se envolvem no mundo do tráfico para sustentar a família. Enfim, são tantas situações que chegamos a nos questionar se de fato Deus está ali e qual o meu papel como missionário. Às vezes achamos que seria melhor calar, e não se envolver, pois o problema não parece ser meu. Mas, se eu calar e apenas observar a vida do próximo sendo destruída, estou assumindo o meu papel de missionário?
            Como Igreja, temos o nosso dever. “Como discípulos de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados a discernir os sinais dos tempos, à luz do Espírito Santo, para nos colocar a serviço do Reino, anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e “para que a tenham em plenitude” (Jo 10,10). Dessa forma, meu dever como missionário, é enfrentar o próprio medo e encarar tais realidades, assim como fez Jesus Cristo, modelo de missionário.
            Mas, o que fazer o seminarista missionário diante desses desafios?
 “A opção preferencial pelos pobres deve estar presente nos estudos e nas práticas pastorais, desenvolvendo assim a sensibilidade de pastor diante do sofrimento do povo”. É o que afirma o Documento 93 da CNBB sobre as diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja no Brasil. O Documento afirma ainda que nesse período de formação, o formando possa dedicar-se com especial atenção aos mais humildes e marginalizados e aos que mais precisam de aproximação solidária e fraterna. (NMI 20). Diante desses  desafios, como seminaristas missionários, devemos observar que “nossa missão, para que nossos povos tenham vida nEle, manifesta nossa convicção de que o sentido, a fecundidade e a dignidade da vida humana se encontra no Deus vivo revelado em Jesus. É urgente a tarefa de entregar a nossos povos a vida plena e feliz que Jesus nos traz, para que cada pessoa humana viva de acordo com a dignidade que Deus lhe deu. Fazemos isso com a consciência de que essa dignidade alcançará sua plenitude quando Deus for tudo em todos. Ele é o Senhor da vida e da história, vencedor do mistério do mal e  acontecimento salvífico que nos faz capazes de emitir um juízo verdadeiro sobre a realidade, que salvarguarde a dignidade das pessoas e dos povos”. (Dap 389).
Jesus é modelo de missionário. “A encarnação de  Jesus na vida do povo ajuda a entender a importância da inserção missionária nos meios populares. A missão sente a necessidade de acentuar sua dimensão de diálogo, testemunho, solidariedade com os pobres, “ovelhas sem pastor” (Mt 6, 34), exigindo a inserção nos meios populares, um êxodo para as formas mais fortes da miséria humana.
Neste sentido, quanto aos questionamentos sobre os desafios da missão, a realidade encontrada, é claro que nestas realidades existem sinais de Deus. O próprio  missionário, que se encontra diante de tudo isso é um grande sinal de Deus e pode tornar Deus mais presente na vida das pessoas.
Como seminarista missionário, posso  também afirmar que “vale apena lutar para humanizar a realidade e fazer crescer a vida; vale apena amar porque Deus nos amou em primeiro lugar e é no amor que as pessoas e o mundo se realizam; vale apena ter esperança porque Deus assumiu o compromisso na história e nos garante o êxito no Cristo Ressuscitado”.
Seminarista Francisco Lima - Diocese de Santarém
Ano Missionário na Diocese de Santíssima Conceição do Araguaia